terça-feira, 20 de outubro de 2009

Margot


Você sabe o que é a pobreza? Não, você não sabe. Tenho certeza que você não sabe. Eu sei o que é. Todos acham que eu sou burra... Mas eu não sou burra. Na verdade eu quero ser, e tenho feito muito esforço para isso. É muito bom não ter inteligência quando se sabe o que é ser pobre.

Quando falo em ser pobre não me refiro somente ao financeiro. Falo da pobreza de caráter, da podridão que assola os corações desses seres que se dizem humanos.

Humanos me lembra humanidade. Esis uma palavra qeu é um divisor de águas. Vejamos qual o seu significado no dicionário:

Humanidade, s.f. Natureza humana; o gênero humano; clemência; compaixão; benevolência; pl. O estudo das legras clássicas consideradas como instrumento de educação moral.

Ao meu ver o mundo pode ser dividido em 2 grandes grupos, à saber:

  1. Aqueles que acreditam na humanidade – categoria dos verdadeiramente burros;

  2. Aqueles que não acreditam na humanidade – categoria dos inteligentes.

Com certeza eu sou inteligente pois se tem uma coisa em que não acredito é na humanidade. Como uma menina que aos nove anos começou a ser estuprada pelo próprio pais pode acreditar em benevolência? Faça-me o favor...

Sim foi isso o que aconteceu comigo. Lembro-me como se fosse hoje: aquele maldito cheiro de bebida e cigarro, o olhar agressivo, as mãos a percorrerem meu corpo tão frágil e indefeso, a barba por fazer... Tudo. Absolutamente tudo, me vem a mente neste exato momento. Depois disso reprovei por três vezes a terceira série. Não consegui continuar. Se minha mãe fosse viva talvez eu teria continuado. Talvez. Aos 12 anos resolvi mudar de vida. Deixei de ser escrava sexual e passei a se prostituta. Minha vida mudou... e para melhor! Passei a receber por aquilo que fazia gratuitamente. Não era muito é verdade mas lá, com a proteção do cafetão, meu pai não chegava mais perto de mim. Eu tinha até simpatia por meus clientes. Alguns eram gentis e me davam gorjetas. Com elas eu comprava revistas de artistas. Gostava de sonhar acordada. Se algum dia, um deles fosse meu cliente, eu ganharia uma gorjeta bem grande e daria para eu ir à Brasília. Uma vez um dos meus clientes que usam ternos disse que lá é a terra das oportunidades. Lá eu poderia ficar rica e depois... não sei. De qualquer forma ficaria rica.

O tempo passou e nenhum artista de revista foi meu cliente. Mas eu consegui juntar uma grana e aos 15 anos eu sai de Araguari e vim para Brasília. Aqui, de fato, é a terra das oportunidades. Desde que cheguei aqui aumentou consideravelmente a quantidade de clientes de terno. Eles são mais gentis, ou melhor, menos grosseiros que o habitual. Costumavam conversar comigo... Outro dia um me perguntou se eu me sentia discriminada... “É claro que não!” Eu disse a ele. Por que eu me sentiria diferente se tem um monte de gente igual a mim. Esses homens tem cada uma!

Outra coisa que melhorou foi: aqui em Brasília eu não tenho cafetão. O que eu ganho e só pra mim. Tenho aumentado a minha coleção de revistas. Elas são chatas, mas me ajudam a não pensar.

Por falar em não pensar, eu conheço um rapaz que me ajuda a fazer isso. O nome dele é Marcos. Ele é músico e toca canções não pensantes. É legal não pensar com ele. O Marcos mora com o Tonhão. Esse é meio chatinho pois pensa demais. Quando estou com ele eu acabo pensando e não gosto disso.

Outro dia, quando estava com Tonhão, acabei concluindo que já estou com 30 anos e preciso pensar no futuro. Daqui a uns dias fico velha para o ofício que exerço. Conheci um traficante de nome Paraíba. Ele não usa ternos mas tem dinheiro. É acho que ele garantirá minha aposentadoria...O passado não importa, o presente eu ignoro, o futuro é que é real.

Pensando bem, é melhor eu não andar com o Tonhão...

Ana Karoline Crispim – A Garotynha Ruiva

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